O TEMOR DO SENHOR, BUNYAN E ANDRÉ VALADÃO

2 maio

Tudo começa com o temor a Deus em nossa caminhada com Cristo. O princípio fundamental implantado nos corações pela graça divina. A regeneração promove na alma humana um gosto esplêndido pela majestade divina, uma admiração pela excelência moral da pessoa do Senhor Deus, O Criador dos Céus e da Terra. O temor se encontra arrolado em toda essa obra monumental realizada soberanamente pelo Altíssimo.

Na trajetória desta viagem que embarcamos para conhecer um pouco mais dos puritanos, segue uma tradução do grande John Bunyan. O pregador inglês, que permaneceu preso por sua fé durante anos, cantava louvorres a Deus na prisão, com uma flauta feita com o pé da cadeira de sua cela. Comumente conhecido por sua obra O Peregrino, Bunyan não era um erudito como tantos outros puritanos. Mas era um sábio pois temia grandemente ao Senhor. Ele escreveu uma obra a qual desde o primeiro século de aniversário de sua existência já era negligenciada por parte daqueles que admiravam Bunyan. A obra chama-se O Temor do Senhor.
O que desperta a atenção neste breve ensaio não é, sem dúvida, a sofisticação da linguagem ou sua perspicácia argumentativa, porém a exposição fiel da Escritura. Tal como o restante dos puritanos, Bunyan pavimenta todo o assunto do ensaio com sólida “analogia da Escritura”. Este, inclusive, era o termo utilizado na época pelos cristãos para se referirem à atitude de corroborar com a Palavra de Deus, de forma substantiva, tudo o que era dito. Outrossim, Charles Spurgeon dizia que o ministro deve “plasmar ” seus pensamentos com a Escritura. O Príncipe dos Pregadores estava apenas reverberando um ideal puritano de ministério. Se é, então, para plasmar, foi o que de fato ocorreu com os puritanos. Segundo reza a lenda, se você cortasse a veia de um deles, dali jorrariam versículos e mais versículos.
Recentemente o cantor gospel e pastor, André Valadão, em uma de suas pregações transmitidas pela Rede Super, falando sobre o milagre da ressurreição de Lázaro, reportou-se a Cristo Jesus, como sendo o amigo que “chega na festa, apronta um barraco para tirar você do buraco, e fala bem alto para que as pessoas ao redor saibam que ele é o cara”. Em contrapartida, há registro na história, de que os escribas e fariseus, ao copiar o nome divino, chegavam ao extremo de fazer uma pausa no trabalho e se lavar. Sabe-se também que houve momentos em Israel que o povo deixou de pronunciar o nome IAWEH, devido ao intenso temor sentido por eles.
A obra e piedade de John Bunyan vão ensinar o caminho batido, seguro e bíblico para se evitar extremos como ocorrem hoje em dia. Há uma confusão generalizada nos meios evangélicos atuais quando se mencionam as palavras “intimidade com Deus”. Em relação à reverência, Cristo hoje em dia “é dez”, “ele é bom demais cara” e outras expressões que fariam Bunyan se revolver no túmulo. John Bunyan passava horas orando initerruptamente. Tinha um amor e fome insaciável pelas almas. Casou-se com Cristo nos sofrimentos e na dor. Ele está habilitado a dizer o que é intimidade. E olha que curiosas são as suas palavras proferidas contra a espiritulidade dos quakers, uma espécie de partido místico daqueles dias. Bunyan afirmava que não queria “estar perdido em Deus”. Seu objetivo era ” manter um diálogo pessoa a pessoa com o Pai e o Filho”. Para ele, este tipo de espiritualidade era extremamente perniciosa pois solapa o apelo bíblico para que a fé esteja alicerçada em verdades objetivas e históricas. Por isso a piedade e obra de Bunyan descortinam tudo o que está envolvido nas questões do temor e intimidade com Deus conforme o salmo 25 preescreve. Leia !!!

Capítulo I – O Temor do Senhor
A Palavra TEMOR como referência ao próprio Deus

Pela palavra temor, como mencionei, devemos entender como sendo o próprio Deus o qual é o alvo de nosso temor. A majestade divina frequentemente refere-se como sendo este o seu verdadeiro nome. Por este nome Jacó invocou ao Senhor quando ele e Labão encontraram-se no Monte Gileade, logo após sua fuga em direção à casa de Isaque, seu pai. Disse Jacó: “Se o Deus de meu pai, o Deus de Abraão e o Temor de Isaque não fora comigo, por certo me despedirias agora vazio. E mais uma vez, no texto adiante, na ocasião em que ambos entram em uma aliança de paz, Labão seguindo a mixórdia dos gentios em seus juramentos, coloca juntos o Deus verdadeiro e falso. Ainda assim Jacó jura “pelo temor de Isaque seu pai” (Gn 31: 42,53). E de fato Deus pode ser chamado de “o TEMOR” do seu povo, não apenas pela graça concedida que o torna objeto do temor do seu povo, mas em virtude de sua terrível e assustadora majestade. “Ele é o Poderoso Deus, grande e terrível, e em Deus há uma tremenda majestade”. (Dan 7:28, 10:17; Ne 1:5, 4:14, 9:32; Jó 37:22). Quem conhece o poder de sua ira? “Os montes tremem perante ele, e os outeiros se derretem; e a terra se levanta na sua presença; e o mundo, e todos os que nele habitam. Quem parará diante de seu furor? A sua cólera se derramou como um fogo, e as rochas foram por ele derrubadas” (Na.1:5,6). O povo de Deus o conhece e traz dentro de si o “assombro” pela virtude de quem os regenerou e sustenta neles a reverência e o piedoso temor por sua majestade. “Seja ele o vosso temor e seja ele o vosso assombro”(Is 8:13). A profissão de fé dos crentes se encaixa perfeitamente com Sua glória. Coloque diante dos olhos de sua alma a majestade de Deus e deixe que a excelência Dele o faça temê-lo com santo temor.

Aspectos que fazem de Deus o temor de Seu Povo

Primeiro- Sua presença é assustadora. Não aquela usual, mas sua mais especial, graciosa e gentil presença. Mesmo quando Deus leva as boas novas de salvação e misericórdia à alma, sua presença é plena de temor. No tempo em que Jacó estava em Berseba a caminho de Harã, ele encontrou-se com o Senhor em sonhos. Ele viu uma escada que se estendia da terra até ao mais alto céu. No topo dela, ele avistou o Senhor e o ouviu, não de maneira ameaçadora, com sua face irada, mas ao contrário, da forma mais doce e bendita. O Senhor saúda Jacó com sucessivas promessas de misericórdia, cerca de oito a nove delas conforme podemos ler na passagem. Porém, quando Jacó desperta, após lhe ser revelada toda a glória daquela visão celestial, outra coisa senão o temor e o espanto envolveram-no. “Acordando pois Jacó do seu sono, disse: Na verdade o Senhor está neste lugar: e eu não o sabia. E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus.(Gn. 28:10-17).” Em outra passagem, a saber, quando Jacó recebeu a inesquecível visita divina lhe dando poder para prevalecer na luta contra Deus, do qual recebeu novo nome cuja lembrança o faria sempre clamar pelo grande favor de Deus, este também foi um momento em que o temor da majestade de Deus pousou sobre ele. Jacó inclusive estava atônito de como pôde sua vida ser preservada (Gn 32:30). O homem desce até o pó diante da presença de Deus, até mesmo quando Ele se revela em seus trajes de salvação. Nós podemos verificar nas Escrituras como a própria presença dos anjos, quando trazem mensagens de paz e refrigério, quão aterrorizados ficam os homens (Juízes 13:22, Mt 28:4, Mc 16:5,6). Sendo assim, se anjos, que são apenas criaturas, conseguem através do esplendor que Deus os revestiu, impor tal pavor em suas manifestações aos homens, o que se pode dizer em relação ao Senhor Deus, quão terrível e espantosa será sua revelação a nós, homens que não passam de pó e cinzas. No instante em que Daniel contemplou a visão daquele que falava com ele, trazendo a resposta de sua oração dos céus, o profeta permaneceu chorando e tremendo, “Como, pois, pode o servo do meu senhor falar com o meu senhor? Porque, quanto a mim, desde agora não resta força em mim, e nem fôlego ficou em mim.(Dn. 10:17). O mensageiro disse a Daniel que ele era “mui amado” e o peso do terror e o assombro caíram sobre a alma deste bom homem. Você compreende como a presença de Deus é ameaçadora e temível, sim, até mesmo sua mais graciosa e misericordiosa aparição. Quanto maior então não será quando ele se mostrar como aquele que repudia nossos caminhos, como aquele que está ofendido com nossos pecados?

Há três aspectos que eminentemente tornam a presença de Deus algo assustador para nós:
Em primeiro lugar é em virtude de sua própria majestade e grandeza. A revelação de Deus ou desses atributos nenhum pobre mortal pode conceber de si mesmo como também são completamente insuportaveis. O homem cai prostrado quando o Senhor a este assim se revela. “e eu quando o vi caí a seus pés como morto” afirma João (Ap.1:17). E foi justamente isto que Jó desejava evitar caso se aproximasse do Senhor. Disse Jó “Desvia a tua mão para longe de mim, e não me espante o teu terror. Chama, pois, e eu responderei; ou eu falarei, e tu me responderás (Jó 13:21,22). Mas por que razão agiu Jó desta maneira para falar com Deus? Por que? Era fruto de um senso que ele possuía da grande e terrível Majestade de Deus, mesmo sendo o Deus grande e temível que guardava a Aliança com seu povo. A presença de um rei humano é uma ameaça para um súdito sim mesmo que ele não otrate com muita condescendência. Se há na presença de reis humanos tal sentimento de reverência, quanto mais na presença do Deus eterno. Quanto espanto e temor estarão presentes.

Em segundo lugar, quando Deus concede sua presença ao seu povo, inevitavelmente evidencia-se o que somos de fato, mais do que em outros momentos em que somos iluminados por qualquer outra luz. “Oh meu senhor” disse Daniel, “por causa da visão sobrevieram-me dores” e o que foi isso senão que pela virtude daquela visão, Daniel percebeu sua vileza mais do que em outras ocasiões. E mais uma vez: “Fiquei, pois, eu só, a contemplar esta visão”; e o que se segue após isso? Por que, “ e não restou força em mim, transmudou-se o meu semblante em corrupção, e não tive força alguma” (Dn. 10:8,16). Diante de Deus, face a face, nossas melhores atitudes, nossa bela aparência, nossa santidade e justiça, tudo, em questão de segundos transformam-se em trapos imundos de corrupção. O brilho da glória divina ofusca-lhes como a reluzente luz do sol obscurece a glória do fogo ou de um castiçal, cobrindo-lhes com a sombra da morte. Perceba a verdade desta argumentação como no exemplo da visão do profeta Isaías. “Aí de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de impuros lábios;” declara ele. Por que? Qual o significado disto? Como se comportou o profeta diante daquela visão? Por que diz ele “os meus olhos viram o Rei, Senhor dos Exércitos (Is. 6:5).? Você acha que este grito de desespero foi causado pela incredulidade? Não; nem mesmo por causa de um medo como de um escravo diante do seu capataz. Aquele clamor se deu pelo fato de que Isaías estava diante do Deus cuja a comunhão ele desfrutara anteriormente (vers. 2-5). Era a glória daquele Deus que agora ele deveria encarar. E como foi no caso de Daniel, a beleza de Isaías, diante de Deus, transfigurou-se em corrupção e lhe transmitiu uma percepção mais aguda da falta de proporção entre o seu Deus e ele; e uma visão mais clara de sua imundícia e poluição natural.

Em terceiro lugar pode-se acrescentar que necessariamente a revelação da bondade de Deus tem de se apresentar assustadora diante de nós. A pobre e iníqua criatura compreende que este grande Deus tem, não obstante sua grandeza e bondade em seu coração, concedido-lhe misericórdia e isso fará a presença do Senhor ainda mais assustadora. Eles “temerão o Senhor e sua bondade” (Os. 3:5). A bondade de Deus assim como sua grandeza geram uma reverência profunda pela sua majestade no coração do eleito. “Porventura não me temereis a mim? Diz o Senhor; não temereis diante de mim?” E assim para promover a obediência em nossa alma, ele acrescenta uma de suas maravilhosas misericórdias visto que há motivo para tal “Não me temereis a mim?” Para que? Quem és tu? Deus responde dizendo que “pus a areia por limite ao mar, por ordenança eterna, que ele não traspassará. Ainda que se levantem as suas ondas, não prevalecerão; ainda que bramem, não a traspassarão” (Jr. 5:22). O mesmo ocorreu com Jó. Durante a visita divina, o que ele declara quando lhe foi manifestada a bondade do grande coração de Deus ? Como Jó se comporta em sua presença? “Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te vêem os meus olhos. Por isso me abomino e me arrependo no pó na cinza”(Jó 42:5,6). E qual então deve ser o significado das lágrimas destes santos, os tremores, sentimento de impotência e temor, diante da sentença divina de perdão dos pecados, proveniente da própria boca de Deus, de uma forma tão inusitada? Não seria obviamente pela espantosa majestade de Deus, envolta em sua misericórdia, que estava diante deles? Deus se apresenta e fala a alma como ele é em si mesmo, e consequentemente, o pecador em face dessas gloriosas manifestações do Senhor e Salvador, não pode evitar o brilho de sua majestade sob os olhos do seu entendimento. “E os purificarei de toda maldade com que pecaram contra mim; e perdoarei todas as suas maldades, com que pecaram e transgrediram contra mim;” Qual o resultado a seguir? “E espantar-se-ão e perturba-se-ão por causa de todo o bem, e por causa de toda a paz que lhes dou(Jr 33:8,9). Mas infelizmente há uma legião de mestres superficiais, frívolos e pobres que se apresentam com o que eles chamam de “presença de Deus”, não como cristãos sóbrios e sensíveis, mas à moda dos fanfarrões. Eles se assemelham aos tolos em uma peça teatral, ao contrário daqueles que têm a presença de Deus. Eles não se comportariam assim diante de um rei, nem ainda na presença do proprietário das terras onde trabalham, caso fossem alvo da bondade deles. Eles se conduzem, mesmo na mais importante ocasião como se o senso e visão de Deus, em sua bendita graça dirigida às suas almas, tivesse uma tendência neles em fazê-los homens de galhofas e brincalhões. Todavia a presença de Deus é a mais humilhante e estupenda visão neste mundo; ela é assustadora.

Objeção- Mas não teríamos nós que nos regozijar mediante esta visão e percepção do perdão de nossos pecados?
Resposta – Sim, mas eu diria a você e você deveria fazer o mesmo quando Deus lhe declarar que seus pecados estão perdoados como fez o salmista: “alegrai-vos com temor” (Sl. 2:11). Assim você vai experimentar uma segura e piedosa alegria; um coração contente e olhos com lágrimas caminham lado a lado com este entendimento e assim será com a intensidade de ambos, oscilando entre um e outro. Na hipótese de Deus se dirigir a ti manifestando o perdão dos pecados, esta visita remove a culpa mas aumentará a percepção de tua vileza e senso de que Deus tem perdoado um vil pecador. Isso trará a ti ao mesmo tempo regozijo e temor. Oh que abençoada confusão cobrirá tua face!

Continua, aguarde!!!

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